(TEA)-RELAÇÃO INTESTINO-CÉREBRO E SUAS INFLUENCIAS NO AUTISMO- PARTE 3

Por: Nayana Barros

O intestino é um órgão essencial do nosso corpo, cuja principal função é a absorção de micronutrientes. A quebra dos alimentos ingeridos começa na boca, logo após segue ao estômago onde são degradados mais ainda pela ação de ácidos gástricos. Logo adiante, já dentro do intestino, os alimentos sofrem degradação por mais substâncias, por exemplo, a bile.

Além do mais o nosso intestino possui outras funções essenciais ao corpo e dentre elas autores ousam apelidá-lo de “Segundo Cérebro”, uma vez que é o órgão, fora do Sistema Nervoso, que concentra a maior quantidade de neurônios. Um exemplo pontual que expressa a estreita relação entre cérebro e intestino é a serotonina, cerca de 95% da quantidade total do hormônio no corpo é produzida no intestino.

A serotonina é um hormônio que está relacionado às nossas sensações de prazer, alegria e satisfação, sendo apelidado de hormônio do amor. Esse hormônio é sintetizado a partir de um aminoácido básico denominado de triptofano, advindo da alimentação. Após sua absorção, o aminoácido sofre ação bioquímica intermediada pela enzima triptofano-hidroxilase para conversão em 5-hidroxi-triptofano (os cofatores utilizados pela enzima são vit. B6 e Mg, também advindos da alimentação).

Em seguida o aminoácido resultante é convertido em serotonina responsável pela sensação de bem-estar. A partir da serotonina vários processos fisiológicos serão ativados, portanto na ausência desse neurotransmissor esses processos serão alterados e outras substâncias serão formadas. O protagonista intestino é o grande responsável pela absorção do aminoácido precursor.

Desse modo, a alteração da função essencial do intestino, como hiperpermeabilidade e disbiose, pode provocar alterações na composição do aminoácido que se torna uma substância neurotóxica, a triptamina. Isto é, ao invés de se tornar serotonina ele se torna outra substância, essencialmente nociva para o corpo, além de resultar numa baixa síntese e liberação de serotonina nas fendas sinápticas, por consequência diminuindo os efeitos do hormônio. Alguns estudos indicam a disfunção intestinal como uma das principais causas de depressão em pessoas. Dessa forma é perceptível a grande influência do intestino no nossa saúde mental.

A rede de neurônio que integram o Sistema Digestivo forma o Sistema Nervoso Entérico, o qual faz parte do sistema nervoso autônomo, responsável pelas nossas ações involuntárias. Possui inervação extrínseca aferente abundante. Sendo o nervo vago com 90% de fibras aferentes, cabe a ele a função de transmitir informações do intestino ao Sistema Nervoso Central. 

O Sistema Nervoso Entérico, apesar de ter sido descrito no século XIX, somente nas últimas décadas recebeu seu merecido destaque no campo da pesquisa, muito devido aos avanços nos estudos sobre a microbiota intestinal e suas influências nos problemas mentais. Vários estudos recentes têm mostrado a existência de uma estreita e complexa comunicação no eixo microbiota-intestino-cérebro, de tal modo que, não somente o cérebro pode apresentar influência importante na homeostase gastrintestinal, como também o trato gastrointestinal somado a sua microbiota pode interferir no desenvolvimento e funções afetivas e cognitivas do Sistema Nervoso Central. 

Esses estudos abrem alas para a relação entre a microbiota intestinal e eventuais inflamações, que podem ser resultantes da disbiose intestinal (desarmonia entre microrganismos e organismo humano) e a várias doenças neuro-degenerativas, e transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e até mesmo transtorno do espectro autista (TEA).

O epitélio intestinal é constituído por células colunares justapostas, unidas através das junções T, conferindo permeabilidade muito seletiva de nutriente. Para auxiliar na proteção e capacidade seletiva desse epitélio, microrganismos que habitam o órgão se unem e formam uma camada que recobre a superfície da parede do intestinal. Ao mesmo tempo em que se beneficiam, as bactérias auxiliam no processo de digestão saudável e essa relação harmônica denomina-se simbiose. 

Ocorre que o intestino tem uma capacidade limite de tamanho de partículas a serem absorvidas. Partículas maiores que excedam esse limite podem destruir o biofilme e provocar danos a parede do trato intestinal, podendo resultar em alterações da permeabilidade, consequentemente partículas indesejáveis e muito grandes como glúten e caseína adentram o corpo e acionam mecanismos imunológicos capazes de gerar desde alergias alimentares até inflamações sistêmicas.

Apesar das discordâncias entre os estudos, autores descrevem a prevalência de alergia alimentar e a observação de que, pelo menos, 91% dos pacientes com TEA apresente uma associação frequente de sintomas ligados ao trato gastrintestinal, do tipo diarreia, dor abdominal, constipação e distensão gasosa. E todos esses sintomas são típicos de alergia alimentar, inflamação, permeabilidade e alteração da microbiota intestinal, resultantes da ingestão de alimentos que prejudicam o intestino, além da presença de toxinas liberadas a partir do estresse.

Algumas pesquisas indicam que a disbiose intestinal em crianças com TEA pode está associada aos hábitos alimentares devido à seletividade de alimentos pelo paciente, ocasionando desnutrição e distúrbios metabólicos que refletem em alterações de enzimas responsáveis pela hidrólise de proteínas como glúten e caseína, ocasionando o acúmulo de peptídeos opióides, dessa forma estimula alterações neurais, promovendo mudanças importantes no comportamento do autista.

Dessa forma, justifica-se a grande adesão do controle nutricional para amenizar as complicações do TEA.  Uma revisão de literatura promovida pela Sociedade Brasileira de Pediatria indica uma média de 50% a 85% dos pais optam pelas dietas especiais (por exemplo, isenção de glúten e derivados de leite), suplementos alimentares e fitoterápicos no tratamento de seus filhos. Vale ressaltar que dietas especiais e quaisquer outros métodos terapêuticos que envolvam restrição alimentar e aspectos pautados no eixo microbiota-intestino-cérebros devem ser indicados por especialistas e de acordo com as condições clínicas do paciente (se apresenta alergia, intolerância ou hipersensibilidade alimentar, dentre outros).

 

Referência:

Sociedade Brasileira de Pediatria. Alergia alimentar e Transtorno do Espectro Autista: existe relação?. Nº 2, agosto, 2017. Disponível em:< http://selfcenter.com.br/pwf/wp-content/uploads/2017/09/Alergia-alimentar-e-Autismo-SBP-2017-1.pdf>.

DIAS, Bianca Pereira. Relação entre microbiota intestinal e o autismo. 28f. Tratalho de Canclusão de Curso (Bacharel em Biomedicina) – Centro Universitário São Lucas, Porto Velho, 2016. Disponível em:< http://repositorio.saolucas.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/1734/Bianca%20Pereira%20Dias%20-%20Rela%C3%A7%C3%A3o%20entre%20a%20microbiota%20intestinal%20e%20o%20autismo.pdf?sequence=1&isAllowed=y>.

VEDOVATO, K.; TREVISAN, A. R.; ZUCOLOTO, C. N.; BERNARDI, M. D. L.; ZANONI, J. N.; MARTINS, J. V. C. P. O eixo intestino-cérebro e o papel da serotonina. Arq. Ciênc. Saúde Unipar, Umuarama, v. 18, n. 1, p. 33-42, 2014.

Art: @d_lart25

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